Divergência Económica nas Províncias: Entre a Resiliência e a Vulnerabilidade
A crise económica desencadeada pela instabilidade pós-eleitoral não afectou Moçambique de forma homogénea. Enquanto algumas províncias enfrentaram destruição generalizada, noutras, os desafios vieram de factores distintos, como problemas climáticos ou dificuldades na obtenção de insumos industriais.
A crise económica desencadeada pela instabilidade pós-eleitoral não afectou Moçambique de forma homogénea. Enquanto algumas províncias enfrentaram destruição generalizada, noutras, os desafios vieram de factores distintos, como problemas climáticos ou dificuldades na obtenção de insumos industriais. O Índice de Robustez Empresarial revela um cenário desigual, onde certas regiões foram mais vulneráveis que outras, tornando evidente a necessidade de soluções específicas para cada contexto.
Maputo: O Epicentro das Perdas
A província de Maputo foi uma das mais atingidas pela crise. Manifestações violentas, vandalismo e saques comprometeram mais de mil unidades produtivas, resultando na perda de 6.700 postos de trabalho. O comércio, os serviços e o turismo sofreram um colapso, com empresários a reportar prejuízos irreparáveis. O transporte também foi gravemente afectado, com bloqueios a aumentar os custos logísticos e a dificultar o fornecimento de bens essenciais.
A hotelaria e a restauração, sectores tradicionalmente fortes na província, foram severamente impactados. No último trimestre de 2024, as taxas de ocupação hoteleira despencaram, e a ausência de eventos e conferências levou a uma queda acentuada na receita. O resultado foi um declínio da confiança empresarial e uma redução significativa nos investimentos.
Inhambane: O Turismo em Declínio e os Desafios Climáticos
Embora Inhambane não tenha sido palco das manifestações mais violentas, a província enfrentou desafios próprios. O turismo, um dos motores económicos locais, sofreu uma quebra drástica na procura. O número de cancelamentos de reservas aumentou de 25% em Outubro para mais de 90% em Dezembro, deixando hotéis e restaurantes vazios numa altura do ano que costuma ser de grande movimento.
Além disso, a agricultura da região foi castigada por condições meteorológicas adversas. A falta de chuvas e as temperaturas elevadas reduziram significativamente a produção, afectando a disponibilidade e o preço de bens essenciais. O tomate, por exemplo, viu o seu preço disparar cerca de 40% devido à escassez.
Nampula: Indústria Fragilizada e Impacto dos Ciclones
Em Nampula, os desafios foram múltiplos. A indústria ressentiu-se da falta de matéria-prima devido à escassez de divisas, tornando a importação de insumos extremamente difícil. Ao mesmo tempo, a burocracia no desalfandegamento e o alto custo da energia comprometeram a produção.
No turismo, a instabilidade política gerou um efeito dominó, levando a um aumento de cancelamentos de reservas ao longo do trimestre. Empresas que dependem do turismo corporativo e de lazer relataram prejuízos superiores a 50 milhões de meticais.
Outro factor agravante foi a passagem do ciclone Chido, que destruiu infraestruturas e gerou perdas financeiras superiores a 40 milhões de meticais no sector dos transportes. Estradas foram danificadas e a mobilidade de bens e pessoas ficou comprometida, afectando ainda mais o comércio e a distribuição de produtos.
Cabo Delgado: O Aumento do Custo de Vida e a Quebra na Produção
Em Cabo Delgado, a instabilidade política e os bloqueios nas estradas fizeram com que o preço do transporte aumentasse em 40%. O acesso a bens essenciais tornou-se mais difícil, enquanto sectores como a indústria e a agricultura viram a sua actividade encolher devido à incerteza generalizada.
A crise pós-eleitoral resultou também no aumento do desemprego. A fraca mobilidade de mercadorias e a destruição de armazéns limitaram a disponibilidade de produtos essenciais como farinha de milho, arroz e açúcar, aumentando ainda mais o custo de vida para as populações locais.
O Desafio da Recuperação
A divergência no impacto da crise entre as províncias mostra que uma abordagem única não será suficiente para impulsionar a recuperação. Enquanto Maputo precisa de segurança e estabilidade para restaurar a confiança empresarial, Inhambane e Nampula necessitam de incentivos para revitalizar o turismo e fortalecer a agricultura. Já Cabo Delgado requer medidas para conter o aumento do custo de vida e garantir a circulação de bens essenciais.
A questão agora é: como evitar que estas desigualdades regionais se aprofundem? Para muitos empresários e trabalhadores, a resposta passa por políticas direccionadas, apoios financeiros específicos e um esforço conjunto para restaurar a estabilidade e a confiança na economia moçambicana.
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