Mozambique Enfrenta Novos Desafios Comerciais: Um Chamado para a Diversificação das Exportações e a Industrialização Intra-Africana
Maputo, Moçambique – Com a imposição de novas tarifas pela administração dos EUA, sob o comando do ex-presidente Donald Trump, os impactos na matriz exportadora de Moçambique têm gerado apreensão entre os formuladores de políticas econômicas e líderes do sector.
Maputo, Moçambique – Com a imposição de novas tarifas pela administração dos EUA, sob o comando do ex-presidente Donald Trump, os impactos na matriz exportadora de Moçambique têm gerado apreensão entre os formuladores de políticas econômicas e líderes do sector. Embora apenas uma pequena parcela das exportações nacionais – menos de 2% – seja destinada aos Estados Unidos, produtos estratégicos, como pedras preciosas e minerais de titânio da Titan Mining, essenciais para a indústria de veículos elétricos, estão especialmente vulneráveis. Esses produtos, embora representem um volume global modesto – aproximadamente 200 milhões de dólares em exportações –, têm entre 40 e 60 milhões de dólares direcionados ao mercado norte-americano, tornando os novos encargos tarifários um desafio significativo para os setores diretamente envolvidos na relação comercial com os EUA.
Mesmo que a carteira de exportação direta para os EUA pareça limitada, os efeitos das tarifas se estendem muito além desses números. Analistas apontam três vias principais pelas quais a economia moçambicana pode ser afetada:
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Exposição Indireta via Comércio Regional: A África do Sul, maior parceiro comercial de Moçambique, está fortemente integrada ao mercado norte-americano, com exportações totalizando cerca de um bilhão de dólares em comércio com os EUA. Assim, qualquer perturbação causada pelas tarifas tem efeito acumulativo sobre as exportações moçambicanas. A interligação das cadeias de abastecimento – que inclui o fornecimento de eletricidade e gás exportados para a África do Sul – implica que a elevação dos custos de produção e uma desaceleração das actividades industriais possam, consequentemente, reduzir o volume das exportações de Moçambique.
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Dinâmicas Econômicas Globais: As novas tarifas aumentam o risco de um abalo econômico global. Caso as maiores economias sofram retrações – com redução na produção industrial, diminuição do PIB global e queda nas exportações – Moçambique, já exposto às flutuações do mercado internacional, poderá enfrentar os efeitos colaterais de uma menor demanda global.
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Vulnerabilidade da Cadeia de Suprimentos: Aproximadamente 70% das actividades de exportação de Moçambique concentram-se em apenas três mercados: África do Sul, Índia e outro país asiático. Essa concentração evidencia a vulnerabilidade da carteira comercial, pois a adoção de medidas protecionistas ou uma desaceleração desses parceiros comerciais pode reduzir ainda mais a competitividade dos produtos moçambicanos, tradicionalmente compostos por matérias-primas de baixo valor agregado.
Em resposta a esses desafios, especialistas e formuladores de políticas recomendam uma série de reformas estratégicas para reduzir a exposição e construir uma estrutura econômica mais resiliente:
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Diversificar os Mercados de Exportação: A estratégia atual concentra as exportações em um número limitado de parceiros. As autoridades moçambicanas são incentivadas a explorar novos mercados além desse seleto grupo, a fim de reduzir a vulnerabilidade a disputas tarifárias bilaterais e choques regionais.
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Impulsionar a Agregação de Valor e a Industrialização: Historicamente, Moçambique tem se dedicado à exportação de matérias-primas com pouca transformação. Para mitigar desvantagens competitivas, é crucial investir em indústrias de processamento doméstico, ampliando a produção de bens semi-processados. Essa mudança não apenas potencializa os ganhos de exportação, mas também fortalece a base industrial, permitindo melhor absorção de choques externos relacionados a custos e variações de mercado.
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Promover o Comércio Intra-Africano: A formação de uma região de livre comércio africana abre uma via promissora para Moçambique. O fortalecimento das parcerias regionais e o estímulo ao comércio intra-africano podem oferecer condições preferenciais, criando uma rede de demanda interna que amorteceria os impactos de medidas protecionistas externas. Essa integração local também potencializa a cadeia de produção e fortalece a competitividade dos produtos africanos.
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Fortalecer as Políticas e as Negociações Comerciais: Ao contrário de economias robustas como a China, Moçambique possui limitada capacidade de retaliação em disputas comerciais. Dessa forma, o governo deve adotar políticas comerciais proativas que visem negociar termos mais favoráveis com os parceiros estratégicos e desenvolver mecanismos internos para reduzir os riscos decorrentes de aumentos tarifários abruptos. Isso inclui o aprimoramento das estruturas regulatórias e o investimento em infraestrutura para diversificar os canais de comércio.
Embora a exposição direta de Moçambique aos encargos tarifários dos EUA seja modesta, a interconexão do comércio global implica que medidas protecionistas adotadas por grandes economias tendem a ter efeitos em cadeia pelo continente africano. Países vizinhos, como a África do Sul – particularmente afetada pelas tarifas norte-americanas – podem reduzir a produção e, consequentemente, diminuir a demanda por matérias-primas moçambicanas. Assim, a região é instada a buscar maior integração continental e adotar reformas políticas e industriais que não só mitiguem os riscos tarifários, mas que também fortaleçam a resiliência econômica a longo prazo.
Diante da perspectiva de uma possível turbulência econômica global, a nova estratégia comercial de Moçambique pode servir de exemplo para outras nações africanas. Ao investir na diversificação de mercados, na agregação de valor industrial e no fortalecimento do comércio intra-africano, Moçambique busca reduzir sua vulnerabilidade e garantir um futuro econômico mais robusto em um cenário internacional cada vez mais volátil.
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