Um gasoduto, mil quilómetros de tensão – e a nova jogada de Trump no xadrez ucraniano
Segundo revelou o The Guardian, os Estados Unidos( EUA), agora sob a liderança de Trump, estão a exigir controlo sobre esta infraestrutura crítica como compensação pela ajuda militar prestada anteriormente, durante a presidência de Joe Biden. A proposta foi recebida em Kiev com desconfiança, para não dizer indignação.
Num mundo onde a diplomacia muitas vezes se parece com um jogo de xadrez, Donald Trump avançou com mais uma jogada ousada. O alvo desta vez é um gasoduto com mais de mil quilómetros que atravessa a Ucrânia, levando gás natural russo até à Europa. O que está em cima da mesa vai muito além de energia, trata-se de soberania, interesses económicos e poder.
Segundo revelou o The Guardian, os Estados Unidos( EUA), agora sob a liderança de Trump, estão a exigir controlo sobre esta infraestrutura crítica como compensação pela ajuda militar prestada anteriormente, durante a presidência de Joe Biden. A proposta foi recebida em Kiev com desconfiança, para não dizer indignação.
O gasoduto em causa estende-se desde Sudzha, na Rússia, até Uzhhorod, no extremo oeste da Ucrânia, passando por cerca de 1.200 quilómetros de território. Não é apenas um canal de gás – é uma rota estratégica que sustenta parte do abastecimento energético da Europa e tem enorme valor geopolítico.
A exigência americana faz parte de um pacote mais vasto de negociações, que inclui o acesso a minerais e outros recursos naturais ucranianos. A Corporação Financeira Internacional para o Desenvolvimento, uma entidade ligada ao governo dos EUA, seria encarregada de tomar controlo do gasoduto, num movimento que muitos em Kiev consideram uma forma moderna de pressão económica.
Volodymyr Landa, economista sénior no Centro de Estratégia Económica, foi directo nas suas declarações. Os Estados Unidos, segundo ele, estão a tentar levar tudo o que puderem, num estilo de pressão difícil de aceitar por parte da Ucrânia. Para Landa, estas atitudes lembram práticas de dominação económica que deviam já ter ficado no passado.
As negociações entre Washington e Kiev têm vindo a deteriorar-se. Fontes citadas pela Reuters falam em conversações cada vez mais tensas, com propostas que soam mais a imposições do que a cooperação entre parceiros.
No ano passado, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ofereceu aos EUA acesso ao sector mineiro do país em troca de garantias de segurança contra a ameaça russa. Trump recusou dar qualquer tipo de protecção formal, mas manteve o interesse nos recursos oferecidos.
Na passada quinta-feira no dia 10 de Abril de 2025, Zelensky reafirmou a sua posição. O acordo deve ser benéfico tanto para os Estados Unidos como para a Ucrânia. Com Trump no leme, a relação entre os dois países parece ter mudado de natureza. A ajuda já não é oferecida como antes – cada gesto vem acompanhado de condições, calculadas em metros de gasoduto e toneladas de minério.
Este braço-de-ferro, embora geograficamente distante, pode também lançar sombras sobre o continente africano. Caso o controlo do gasoduto gere instabilidade prolongada ou até interrupções no fornecimento de gás para a Europa, os mercados energéticos globais poderão sentir novos choques. Para países africanos que dependem da importação de combustíveis fósseis, como Moçambique, isto pode traduzir-se em aumento do custo da energia, com reflexos sobre os transportes, a produção agrícola e o custo de vida geral.
Além disso, o foco crescente dos Estados Unidos na Europa de Leste poderá significar um desvio temporário da sua atenção e investimento para com África. Isso inclui projectos em sectores cruciais como a energia, mineração e infraestruturas. Países africanos que têm contado com capital norte-americano para desenvolver os seus recursos naturais ou implementar energias renováveis podem enfrentar atrasos ou reavaliações nas prioridades de financiamento.
O que está em jogo ultrapassa uma simples infra-estrutura energética. Trata-se de um novo equilíbrio de poder, onde a Ucrânia tenta defender a sua soberania, os Estados Unidos reforçam a sua influência, e África, embora à margem do conflito, pode sentir o impacto nos seus mercados e nas suas ambições de desenvolvimento.
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