Millennium BIM retém lucros de 2024 e reforça reservas: estratégia prudente em meio à incerteza financeira
O Millennium BIM, um dos principais bancos comerciais de Moçambique, decidiu reter integralmente os lucros referentes ao exercício de 2024, contrariando a proposta inicial de distribuir 30 por cento dos resultados aos accionistas. A medida foi aprovada em Assembleia Geral realizada a 31 de Março e tem como fundamento o agravamento do risco soberano do país.
Maputo, 16 de Maio de 2025 — O Millennium BIM, um dos principais bancos comerciais de Moçambique, decidiu reter integralmente os lucros referentes ao exercício de 2024, contrariando a proposta inicial de distribuir 30 por cento dos resultados aos accionistas. A medida foi aprovada em Assembleia Geral realizada a 31 de Março de 2025 e tem como fundamento o agravamento do risco soberano do país.
A decisão foi tomada poucos dias após a agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) rebaixar a classificação da dívida pública de Moçambique de CCC menos para SD (Selective Default), na sequência da reestruturação da dívida interna. O banco justificou a retenção dos dividendos como forma de reforçar a sua estrutura de capital e preparar se para possíveis impactos futuros decorrentes desse cenário.
Em 2024, o Millennium BIM registou lucros líquidos de 3.309 milhões de meticais (46 milhões de euros), uma redução de 54 por cento face aos 7.211 milhões de meticais registados em 2023. A queda deveu se sobretudo ao aumento de imparidades e provisões, num contexto económico mais adverso.
Apesar da redução dos resultados, o banco aumentou o seu rácio de solvabilidade para 36,7 por cento, valor bastante superior ao mínimo regulamentar de 12 por cento, o que demonstra resiliência e prudência na gestão de risco. O total de activos do banco cresceu 6,1 por cento, alcançando 202 mil milhões de meticais, e os depósitos de clientes subiram 7,1 por cento, totalizando 156,8 mil milhões de meticais.
A decisão do Millennium BIM destaca se no panorama bancário nacional. Enquanto o BCI Banco Comercial e de Investimentos manteve uma política de dividendos com distribuição parcial dos lucros de 2024, o Moza Banco adoptou uma estratégia mais próxima à do Millennium BIM, com retenção substancial dos lucros para reforço de reservas.
Essa divergência evidencia abordagens diferentes em relação à exposição ao risco económico sistémico. Enquanto alguns bancos procuram manter a confiança dos accionistas com retorno financeiro imediato, outros adoptam uma postura conservadora de preservação de capital.
Economistas da EDUC Investimentos consideram que a decisão do Millennium BIM revela um posicionamento estratégico responsável. Em vez de priorizar o retorno imediato aos accionistas, o banco está a preservar a sua capacidade de solvência e resiliência num ambiente económico desafiante. Esta atitude, segundo os analistas, fortalece a confiança dos depositantes e projeta estabilidade a longo prazo, num momento em que o sistema financeiro exige maior prudência e adaptação.
Ao optar pela retenção total dos lucros de 2024, o Millennium BIM envia uma mensagem clara ao mercado. Estabilidade e solidez a longo prazo são prioritárias, sobretudo em contextos de elevada incerteza macroeconómica. Embora tal decisão possa ser recebida com reservas por alguns investidores, posiciona o banco numa trajectória de reforço de confiança institucional e preparação para eventuais choques sistémicos. Uma estratégia que poderá revelar se acertada nos próximos anos.
Por: Amós Clifton Maúre
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