Grad shape
Grad shape
184 - 1

Prime Rate de dezembro cai para 15.80%, mas crédito a economia continua alto

prime-rate-de-dezembro-cai-para-1580-mas-credito-a-economia-continua-alto

A Prime Rate do Sistema Financeiro Moçambicano voltou a baixar para 15,80% em Dezembro de 2025, reflectindo uma redução conjunta no Indexante Único (9,60%) e no Prémio de Custo (6,20%), conforme dados oficiais da Associação Moçambicana de Bancos e do Banco de Moçambique .

Mas, apesar desta descida — e da clara orientação do regulador — as taxas de juro finais aplicadas pelos bancos comerciais continuam teimosamente altas, levantando dúvidas sobre a eficácia da transmissão da Prime Rate para a economia real.

Recentemente, o Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, reconheceu que a redução da Prime Rate não se reflecte uniformemente no mercado:

“Para alguns segmentos, as taxas de juro estão a descer; para outros mantêm-se; e para outros até estão a subir. Mas o sinal do regulador é inequívoco: o movimento é de redução.”

Na prática, porém, os spreads aplicados pelos bancos continuam a elevar consideravelmente o custo final do crédito, anulando o efeito da descida da Prime Rate.

Economistas alertam: problema não está na Prime, mas na forma como os bancos a utilizam

O economista sénior Paulo Matavel, em análise no programa Economia e Negócios, destacou que o bloqueio não está no valor da Prime Rate, mas sim nos spreads e nos fundamentos de risco da economia que os bancos utilizam para justificar juros elevados.

1.      MPL elevado — 9,3%, contra o recomendado de 5%

Segundo os mais recentes dados do Banco Central, o rácio de crédito malparado (MPL) está em 9,3% no terceiro trimestre — quase o dobro do recomendado.

“Com um MPL acima de 9%, os bancos naturalmente protegem-se, carregando os spreads. A Prime Rate até desce, mas não chega ao cliente”, explicou Matavel.

2.      Estrutura accionista pouco alinhada com a economia nacional

Matavel sublinhou que os grandes bancos são maioritariamente controlados por grupos estrangeiros (portugueses e sul-africanos), cujos accionistas:

·         não têm sensibilidade para a fragilidade e necessidades da economia moçambicana;

·         não privilegiam sectores estratégicos, como agricultura, PME’s ou indústria;

·         mostram aversão ao risco, mesmo quando o PRIME RATE baixa;

·         preferem investimentos financeiros seguros (Obrigações do Tesouro, mercado monetário, operações interbancárias), em vez de expandirem crédito produtivo.

·         “Os bancos não estão dispostos a assumir risco nos sectores prioritários. Estão mais preocupados com aplicações fáceis e seguras.”

3.      Supervisão do mecanismo de formação da taxa final

O economista questionou ainda até que ponto o regulador está a monitorizar a forma como os bancos aplicam a Prime Rate + spread, dado que:

  • crédito ao consumo chega a incorporar spreads de 10–12%,
  • microfinanças praticam spreads superiores a 40%,
  • e empresas enfrentam spreads de 4% a 6%, dependendo do banco.

Ou seja, mesmo com Prime Rate baixa, o custo final ultrapassa facilmente 20% ou 30%.

Contudo, espera-se que, daqui para frente, haja maior pressão institucional para que os bancos ajustem os spreads e transmitam efectivamente a redução da Prime Rate, tornando o crédito mais acessível à economia real. Ao mesmo tempo, o regulador poderá reforçar mecanismos de supervisão e incentivar o financiamento a sectores produtivos. A persistente rigidez dos bancos deverá acelerar a procura por alternativas de financiamento, sobretudo no mercado de capitais, onde obrigações, papel comercial e investimentos em bolsa começam a tornar-se opções mais atractivas para empresas e investidores.

5 minutos de leitura
Compartilhe esta postagem:
0

Comentários

Não há comentários ainda. Seja o primeiro a comentar!

Por favor, dê sua opinião!
Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *.