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Não foi apenas Maduro: a disputa real é pelo petróleo — e o mundo está a regressar à geopolítica da força

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A imagem que correu o mundo — Donald Trump a capturar Nicolás Maduro — tornou-se instantaneamente simbólica. Para uns, representa o fim de um regime contestado. Para outros, uma violação grave da soberania internacional. Mas, para além do choque visual e político, há uma pergunta que quase ninguém colocou com a seriedade necessária:

Por que razão a Venezuela voltou a estar no centro do poder global, num momento em que o mundo fala de transição energética?

A resposta está no petróleo e no Ouro. E os números não mentem.

A Venezuela detém aproximadamente 303 mil milhões de barris de reservas provadas de petróleo, segundo dados consolidados por organismos internacionais de energia. Este volume representa cerca de 17–18% de todas as reservas conhecidas no mundo, tornando o país o maior detentor de petróleo do planeta, à frente de:

  • Arábia Saudita (~267 mil milhões de barris)

  • Canadá (~168 mil milhões)

  • Irão (~208 mil milhões)

  • Iraque (~145 mil milhões)

Estas reservas estão concentradas, em grande parte, na Faixa Petrolífera do Orinoco, uma das maiores acumulações de crude pesado do mundo.

Este ponto é essencial:
👉 produção actual não é o mesmo que poder estratégico.

Hoje, a Venezuela produz pouco — menos de 1 milhão de barris/dia em alguns períodos — devido a sanções, colapso de investimento, degradação institucional e isolamento financeiro.
Mas as reservas permanecem intactas.

Num mundo em que:

  • a transição energética é lenta e desigual,

  • conflitos armados pressionam a oferta,

  • sanções tornam produtores tradicionais instáveis,

as reservas passam a valer mais do que a produção imediata. São elas que definem quem terá margem de manobra nas próximas décadas.

Produção global: quem manda hoje — e quem pode mandar amanhã

Chart: The World's Largest Oil Producers | Statista

Os maiores produtores actuais de petróleo são:

  1. Estados Unidos

  2. Arábia Saudita

  3. Rússia

Estes países controlam volumes, preços e fluxos de curto prazo.
Mas nenhum deles possui, isoladamente, o potencial de reservas não exploradas que a Venezuela oferece.

É por isso que, do ponto de vista estratégico, o controlo ou influência sobre a Venezuela equivale a uma carta energética para o futuro — especialmente num contexto de rivalidade com China e Rússia.

O ouro venezuelano: o activo silencioso que incomoda

Menos discutido, mas igualmente sensível, é o ouro.

Estimativas oficiais e estudos geológicos indicam que a Venezuela possui mais de 8.000 toneladas de ouro ainda não exploradas, concentradas sobretudo no Arco Mineiro do Orinoco, uma região de cerca de 112.000 km² rica em ouro, coltan, diamantes e outros minerais estratégicos.

Se estas estimativas se confirmarem plenamente, a Venezuela passaria a figurar:

  • entre os maiores detentores de ouro do mundo,

  • como o maior detentor da América Latina, superando amplamente países como Peru e Brasil.

O ouro tem um papel geopolítico específico:

  • é reserva de valor fora do sistema financeiro dominado pelo dólar;

  • permite contornar sanções;

  • sustenta liquidez em contextos de isolamento internacional.

Nos últimos anos, o regime venezuelano utilizou o ouro como moeda paralela de sobrevivência, inclusive em transações informais com actores externos. Isto transformou o sector mineiro num ponto sensível de soberania económica — e num foco de interesse externo.

“Os EUA vão gerir a Venezuela”: uma frase que diz mais do que parece

Quando Donald Trump afirma que “os Estados Unidos vão gerir a Venezuela”, a frase não pode ser lida apenas como retórica política.

No vocabulário económico e estratégico, “gerir” significa controlar decisões-chave:

  • quem explora o petróleo,

  • quem financia a recuperação da infraestrutura,

  • quem acede às reservas,

  • quem define os contratos e os fluxos de exportação.

Não é linguagem de diplomacia.
É linguagem de gestão de activos estratégicos.

A captura de Maduro funciona, assim, como símbolo visível de uma reconfiguração invisível: a tentativa de retirar da esfera de influência rival o maior stock energético ainda disponível no planeta.

Por que agora? O contexto internacional explica o timing

O momento não é acidental.

O mundo vive:

  • guerra prolongada na Ucrânia,

  • instabilidade crónica no Médio Oriente,

  • competição directa entre EUA, China e Rússia,

  • pressão crescente sobre cadeias energéticas e minerais críticos.

Neste cenário, a energia voltou a ser tratada como questão de segurança nacional, não apenas económica. Países com grandes reservas e instituições fragilizadas tornam-se nós críticos de disputa.

A Venezuela reunia todos os factores:

  • enormes recursos estratégicos,

  • isolamento internacional,

  • fragilidade institucional,

  • alinhamento com potências rivais.

O silêncio internacional: prudência ou medo do precedente?

Muitos governos limitaram-se a comunicados genéricos. Outros evitaram condenações frontais. Alguns aplaudiram discretamente.

Esse comportamento revela algo importante:

a compreensão de que este precedente pode estender-se a outros contextos.

Se um país pode ser colocado sob tutela informal por deter activos estratégicos e não conseguir protegê-los institucionalmente, nenhum país rico em energia está totalmente fora do risco

E Moçambique? A lição é estrutural, não política

Para Moçambique, este episódio não é distante.

Moçambique:

  • possui gás natural de classe mundial,

  • atrai grandes interesses externos,

  • depende de financiamento internacional,

  • enfrenta desafios institucionais conhecidos.

A experiência venezuelana deixa uma mensagem clara:

recursos naturais não garantem soberania; instituições fortes é que a sustentam.

Num mundo em que petróleo, gás, ouro e minerais críticos voltaram ao centro da geopolítica, a fragilidade institucional transforma riqueza em vulnerabilidade.

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